âmbar

@René Magritte, Le soir qui tombe (Evening Fall), 1964

 

comprou brincos de âmbar

porque alguém disse

que se juntasse a cor da pele

com a dos olhos e dos cabelos

a soma seria âmbar

no telefone ela sorri muito

mexe a cabeça para que os brincos

pendurados batam no fio

assim ela lembra que está de brincos

assim ela lembra que tanta gente passa uma vida

inteira sem saber qual é a soma

de todas as cores

e eu já encontrei a minha, ela diz

cheia de dentes (os dentes

imagino do outro lado da linha)

conta que tem dormido pouco

não lembra nunca do que sonhou

ou fala isso porque no fundo os sonhos

são inconfessáveis

de repente uma longa pausa

e se os sonhos fossem

subitamente proibidos?

ela pergunta dramática

diz que não vai ter pressa

o mapa astral diz para não ter pressa

não vou acumular dívidas

minha vida será confortável

um amor e filhos é possível

enrosca o âmbar com o indicador

aperta a pedra até não quebrar

um amor que ainda vai acontecer

a astróloga a aconselhou a viajar

vai comprar um anel em cada canto do mundo

precisa usar os anéis todos juntos

uma mão toda de prata quase uma luva

depois vai perder os anéis um por um

especialmente aquele com a pedra âmbar

vai dizer que tomou todo cuidado possível

mas todo cuidado possível não previne do frio

que afina os ossos no inverno

e faz com que os anéis deslizem e se lancem

não previne dos assaltantes

nem dos lapsos em quartos de hotel

nem das pessoas que pedem

para ficar com um lembrete uma recordação

todo cuidado não previne sequer da vontade

de esquecer o anel de propósito