agustina bessa-luís

agustina bessa-luis

 

Por  Anabela Mota Ribeiro

Ouvir Agustina Bessa-Luís é assistir à inteligência, manifestando-se. E ao riso, que é o das crianças ainda intactas da mancha do medo. É assistir a uma inusitada felicidade natural, que é como ela chama à disposição que tem perante a vida. (Inusitada porque os génios não amam o mundo desta maneira, não riem com tamanha satisfação).

«Nasci adulta, morrerei criança», escreveu ela num dos seus livros. A ideia percorre as próximas páginas. Ou seja, a explicação do mundo segundo Agustina e a explicação do mundo de Agustina.

Nasceu para os lados de Amarante. Vive no Porto, numa encosta que dá para os Caminhos do Romântico. Tem 80 anos. Eis, em discurso directo, um génio em estado puro.

 

Importa-se que me chegue?

Não, nada.

 

O Kierkegaard dizia que a filosofia de Hegel era como um palácio de cristal, inabitável. Era de tal modo perfeito, as suas faces de tal modo cristalinas, que as angústias não teriam ali lugar.

Escrevi uma peça de teatro sobre Kierkegaard, que me inspirava uma curiosidade enorme. É pouco conhecido porque ele próprio se esconde atrás da obra. Pensei na existência de um segredo na vida dele… Ele conta que o pai, (dá a impressão que teria bebido demais), disse qualquer coisa de tão terrível que ficou a pesar-lhe para a vida inteira. É isso que explica todo o drama com a namorada, a Regina Olsen, e toda a incapacidade que sente em casar e constituir família. Uma angústia… Para algumas pessoas essa angústia pode não ter necessidade de um fundamento. Pode ser a própria existência, a luta com a existência, a dualidade que é, enfim, a dos sentidos e a da aspiração do infinito. Tudo isso faz um grande autor. Depois do Dostoievski, é a figura das letras que mais aprecio.

 

Dostoievski mais do que Tolstoi?

Ah, muito mais. Considero «Crime e Castigo» a maior obra da humanidade. Ainda há tempos me perguntavam se estava de acordo com uma frase dele, em que se diz que os homens de acção são em geral burros e incapazes! Respondi, «Estou de acordo». E a outra pessoa «Pergunto-lhe porque sou um homem de acção». «Tenho muita pena, eu também seria uma mulher de acção se não fosse escritora».

 

Tolstoi teve, na segunda fase da sua vida, um projecto ascético, voltado para a religiosidade e espiritualidade. 

Bem, mas como dizia a mulher do Tolstoi, a Sofia Andreievna, teve esse acesso místico quando envelheceu! Enquanto novo não era nada místico!, ela fartou-se de ter filhos, com vontade ou sem ela. Acho-o muito mais trágico, até, que Dostoievski. O Tolstoi tem uma tragédia profunda, e há uma vivência física dessa tragédia que se desenrola até ao final.

 

Tudo isto vinha a propósito da epígrafe do seu novo livro «A Alma dos Ricos»: «Quando temos uma coisa santificada e muito pura, ela só se torna interessante quando combinada com elementos grosseiros». Como se os elementos grosseiros pudessem ser a angústia do Kierkegaard postos na pureza do palácio de cristal do Hegel.

Na vida do Kierkegaard havia esse traço de grosseria. Uma herança do temperamento paterno, homem que apreciava conquistar as criadinhas ao domingo. Há todo um desejo de sedução que é profundamente carnal, viril, mas que tem como inimigo a aspiração à perfeição, que o lança para a espiritualidade. Encontramos muito essas duas forças, em Dostoievski, também em Tolstoi, Kafka, e outros. Mas vamos falar sobre…

 

Tinha pensado começar por um lapso meu. Ao telefone, perguntou-me se sabia onde é a sua casa. E eu, que sei bem onde é a Rua do Gólgota, respondi «É na Rua das Górgonas»!

[riso] Não me recordo de ter dito isso.

 

As Górgonas são figuras mitológicas, terríveis, com serpentes enredadas na cabeleira. Talvez tenha feito esta associação por causa da imagem diabólica e perversa que se tem de si. Uma imagem já mitificada. 

E muito errada! Não tem nada que ver. Mas claro, quando queremos identificar uma pessoa, difícil de detalhar e compreender, a melhor maneira é encontrar uma definição que simplifique as coisas. Começou há muito tempo… Primeiro, era «Barroca», definição do Óscar Lopes, mais literária. A certa altura passou a achar-se que eu era perversa. Tornou-se muito fácil, e sobretudo entre as mulheres a coisa circulou. As pessoas dadas ao epigrama, aos aforismos, que não são exactamente maneiras convencionais de ver as pessoas e o mundo, são tidas por perversas. Perversidade no fim de contas é o que não é convencional. Então, a civilização é uma perversidade! A pureza verdadeira é o homem das cavernas.

 

Porque é que não considera adequado o epíteto de perversa, se, justamente, o seu olhar e a sua postura não são nada convencionais?

Sou bastante convencional, no convívio. Quem tem de criar uma obra, de escrever, como eu, outros terão outra maneira de se exprimir, tem de economizar o mais possível o tempo. Para isso, tem de tornar tudo aquilo que o rodeia almofadado, fácil de ser vivido, e torna-se convencional.

 

Na última Feira do Livro de Lisboa, numa sessão que lhe era dedicada, ouvi-a falar da impossibilidade de chegar à verdade do que é o outro. O outro é sempre razoavelmente opaco para nós. 

Desde que começou a reflectir, o ser humano tem a consciência de que é diferente do outro. Na pré-história não se tinha a consciência de que se era diferente, mas que o outro era um inimigo. Essa pré-história está ainda dentro de nós, actuamos ainda como se o outro fosse um inimigo. À medida em que se foi reflectindo e civilizando, o outro deixou de ser um inimigo para passar a ser um diferente. E estabeleceram-se acordos de paz. O sentido de paz começa aí.

 

para ler a entrevista na íntegra, acessar:  http://anabelamotaribeiro.pt/25862.html