a vida em marte

Dizem que não existe vida fora da Terra. Mas dizem também que existe. Marte é famoso por ser o planeta habitado mais próximo de nós. Tem ainda gente que nega. E tem gente que diz que tem gente na Lua também. A Lua porém, é muito polêmica, e por isso hoje vamos tratar apenas do planeta Marte.

Aqui, na Milky Way Galaxy, Marte atende pelo apelido de Planeta Vermelho. As pessoas que moram no Planeta Vermelho são verdes e se chamam marcianos. A espécie marciana foi dividida por um mito antigo em dois gêneros. Poderiam ser três, poderiam ser dez, ou infinitos, mas para eles são dois, e sempre foi assim. A espécie marciana é divida em marcianos e marcianas.

Os marcianos e as marcianas são como os plugs de tomadas macho e fêmea aqui da Terra. Dois ou três pinos, tanto faz, o que importa é que o formato do corpo dessa população possibilita que um entre dentro do corpo do outro, ou se você preferir, que um receba o outro dentro do seu próprio corpo.

Antigamente em Marte, os marcianos acreditavam que a casa das marcianas deveria estar sempre disponível para recebê-los. Os marcianos botavam fé que seu Deus Vermelho desenvolvera o gênero das marcianas exatamente para isso, para receber. Assim como, antigamente na Terra achava-se que a função do sapato era receber o pé, até o dia em que os sapatos saíram andando sozinhos, e a mentalidade em relação aos sapatos na Terra mudou completamente. Em Marte os viajantes entravam, comiam o que queriam, cuspiam, defecavam, quebravam vidraças, chamavam amigos, rasgavam o sofá, fartavam-se, às vezes só dormiam, e quando estavam satisfeitos ou cansados iam embora. Às vezes voltavam, às vezes nunca, isso eram eles que decidiam. Às marcianas cabia manter a porta aberta, a fachada em ordem, e ao fim agradecer a visita.

Mas, nem sempre foi assim.

Há muitos e muitos anos, numa era anterior ao imperador, lá muito antigamente, antes mesmo do advento da samambaia, acontecia que marcianos e marcianas eram livres e decidiam entre si onde queriam dormir. Entrar na casa um do outro era uma decisão tomada de comum acordo e todo mundo se divertia, todos eram gentis hospitaleiros e hóspedes estupendos. Esse tempo é chamado na mitologia marciana de Paraíso. Paraíso no dialeto marciano primitivo quer dizer lugar perfeito.

Perfeito, mas nem tanto. Pois houve um dia, em que uma leva de marcianos veio com defeito. E em vez de partilhar, dividir, acolher, amar, respeitar e gozar a vida, vieram programados para separar, dominar, subjugar, saquear e acumular. Esse é um dos grandes mistérios de Marte, o calcanhar de Aquiles daquele povo. Como um lote com um tilt tão acentuado teria passado pelo controle de qualidade do poderoso Deus Vermelho? E uma vez tendo passado, como seria possível que o poderoso Deus Vermelho nunca tivesse organizado um recall?

São muitas as teorias sobre o lote de marcianos mutantes. Há quem diga que eles teriam vindo com o DNA da empatia danificado. Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, e assim, sentir o que o outro sente. Sentir é aquela coisa que é mais fácil sentir do que explicar, e por isso a empatia é um DNA tão fundamental.

O fato é que, a partir dessa geração, aquele que possuía pinos de encaixe, passou a ter prevalência sobre os nascidos com plugs do tipo receptor. E teorias mirabolantes foram criadas para justificar o poder do pino sobre o orifício. É importante ressaltar que com o tempo as marcianas também foram afetadas por essa má formação genética. E a empatia deixou de ser uma ausência exclusiva dos marcianos.

E só quem tinha pino, dois, três, tanto faz, podia ter posses, quem tinha buraco, dois, três, tanto faz, não. Assim, as marcianas estavam impedidas de possuir, e se tornaram possuídas (lá em Marte é tudo assim, binário). E as marcianas passaram a ser propriedade dos marcianos, como uma cabra, uma colher, ou um pé de feijão. E como é impossível confiar numa marciana, uma série de artifícios restritivos foram criados, a começar pelo cinto de castidade. O cinto de castidade era como se fosse uma calcinha aqui da Terra, só que feita de ferro, trancada com cadeado, para que nenhum pino pudesse entrar. Isso dificultava a liberação de dejetos orgânicos por parte das marcianas, além de limitar seus movimentos, mas isso não era importante. Em outras paragens o impedimento era feito da própria carne das fêmeas, a partir de uma técnica intitulada infibulação. A infibulação é como se fosse uma cirurgia aqui da Terra, só que sem anestesia, sem hospital, sem médico e sem doença, ela é feita em cima de uma pedra embaixo do sol, e no lugar do bisturi são usadas facas, tesouras ou cacos de vidro. Essa cirurgia, também conhecida como MGM (mutilação genital marciana), tinha como objetivo impedir o coito, garantindo a virgindade e a pureza. Os genitais das marcianas eram cortados e costurados, tudo bem apertadinho para que nenhum pino pudesse entrar. Esse procedimento era feito em marcianas com idade entre 3 e 15 anos. E na noite de núpcias o marido reabria então a fenda com uma faca para que o ato pudesse ser consumado. A mutilação genital marciana compreendia ainda a amputação completa do clitóris, o único órgão do corpo delas destinado exclusivamente ao prazer. Assim, bilhões de marcianas jamais experimentariam um orgasmo. A mutilação genital marciana dificultava a liberação de dejetos orgânicos por parte das marcianas, muitas morriam, um terço, mas isso não era importante.

Ao longo dos séculos esse tipo de castração foi se desdobrando em outras formas e modismos, uma delas é a chamada burca. A burca era uma veste que cobria todo o corpo, dos pés até os cabelos, incluindo o rosto e os olhos das marcianas. Teve também o espartilho, uma peça de vestuário que dispunha de barbatanas e amarrações com o objetivo de refrear os corpos. E muitos outros meios de controle subjetivo foram criados, a começar pela própria linguagem.  “Os marcianos”, por exemplo, se tornou sinônimo de toda a população de Marte, quando se falava “os marcianos”, estavam subentendidas aí todas as marcianas do planeta sem que se precisasse mencioná-las.

Com o tempo as marcianas que sempre ralaram muito, mas cujo trabalho nunca havia sido considerado trabalho, foram conquistando espaço, saíram da cozinha, e começaram a receber cascalhos por serviços semiescravos. Enquanto isso, os marcianos inventaram as máquinas e o lucro, e logo a marciana se tornou uma consumidora , e logo as marcianas se tornaram um mercado. Os marcianos então, criaram uma marciana imaginária, um tipo ideal, uma deusa, cuja imagem era alardeada por todos os lados. E as marcianas, coitadas, gastaram tudo o que tinham. E muitas deitaram nas mesas de cirurgia, desta vez em hospitais, com médicos, anestesia, mas ainda sem doenças. As marcianas submetiam seus corpos a inúmeras mutilações, na ânsia de se assemelharem a tal deusa propagada, mas dificilmente conseguiam, algumas tinham a autoestima abalada, outras morriam, mas isso não era importante.

Então um dia, um político chinfrim quis reavivar uma lei antiga obrigando as marcianas a gerarem e parirem os filhos dos seus estupradores. Foi a gota d’água. A ignomínia vencera o escárnio.

Tantos séculos haviam se passado, e as marcianas continuavam se comportando direitinho, continuavam aceitando estar fora da linguagem, aceitando trabalhar três vezes mais, aceitando receber três vezes menos, aceitando cuidar sozinhas dos filhos enquanto os marcianos saíam para comprar cigarro e nunca mais voltavam, aceitando cuidar sozinhas dos filhos enquanto os marcianos estavam na sala só vendo televisão, aceitando serem xingadas, coisificadas, objetificadas, espancadas, ridicularizadas, traídas, trancafiadas, traficadas, prostituídas e assassinadas , mas até quando? O que ninguém imaginava é que até para as complacentes marcianas existiria um limite. E aquela foi a gota d’água.

O que se seguiu foi uma revolução, a chamada Revolução Marciana. Cabeças rolaram e foi sangue para todo lado. Entre as primeiras medidas da Revolução Marciana estavam a reforma da própria linguagem, e um sistema de cotas para elas .

Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Pouco tempo depois da Revolução Marciana, cientistas marcianas recuperaram o DNA da empatia, reintroduzindo-o na população, que tornou a transmitir hereditariamente esse sentido para as futuras gerações.

Hoje, receber corpos em casa voltou a ser uma imensa honra para o povo de Marte. Receber é um momento de cordialidade mútua tanto para quem visita, quanto para quem é visitado. Para marcianas e marcianos é tão probo ser hospitaleiro, quanto é uma bênção ser um forasteiro .

Mas, nem sempre foi assim.

Há vida em Marte.

 

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A cada 11 segundos uma menina tem seus órgãos genitais mutilados, 130 milhões de mulheres e meninas vivas hoje no planeta tiveram seus genitais removidos sem anestesia, com facas ou cacos de vidro, imobilizadas sobre uma pedra embaixo do sol. Clitóris e lábios ceifados impedem que mulheres sintam prazer sexual. Quando você acabar de ler esse texto isso terá acontecido de novo. Existe uma fundação internacional que salva meninas dessa barbaridade. Com a sua ajuda é possível preservar as flores do deserto.

 

Desert Flower Foundation

http://retteeinekleinewuestenblume.de/