Resposta a Mário de Andrade

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© Ana Kiffer

 

À carta de Mário para Drummond

Mário,
veja bem:

Eu decidi retirar todo o mobiliário francês que ocupava aqui e ali essa minha casa. Essa nossa correspondência inacabada. Para acabar de vez.

A minha casa não é o Rio, nem São Paulo, nem Paris. A minha casa não é uma alma. Não tenha pena, de mim! Não me venha escrever assim, dando lições dos teus altos anos. [enganos]. Pedindo-me encontrar mocidade no seio da tua velhice. Você que guarda e recolhe a sete chaves a erudição e a civilização, você que acusa de errado àquele que a esse modelo caquético [catequético] se contrapôs ou põe! Você homem branco e ocidental não me venha dizer tão simpático que foste a puxar conversa com ‘gente chamada baixa e ignorante’, invente outro nome poeta! E pare de querer [só] letrar o mundo! O que não tem nome deixe viver. inominável!

A minha mobília francesa ‘bem pensante’, como dizes, me sopra ainda uma última crença tua, estapafúrdia: achar que pôr nos livros, que escrever a vida é o que nos faz falta! Você, herói sacrificado desse país imaginário, cheio de cores fortes a serem vistas nos quadros! Acreditar que ‘gostar de viver’ é suficiente diante da miséria, da fome, da dor e da violência que cardou o meu e muitos outros corpos… Isso tudo apagado de suas letras, meu corpo visto por uma fresta voyeurística, por onde desfilam ‘vestidos extravagantes’ ou rebolados sublimes. Dizer que a minha dança só é dança pois que ignorante dela mesmo, existindo religiosamente sem olhar ‘pra lado nenhum’? Pensas mesmo que a vida que se tremula aqui, nesse corpo que por um triz sobrevive a você e a tantos, se dá em sua potência porque em estado de inconsciência? Está você ainda atribuindo-se a tarefa de alfabetizar esse país nunca vindouro? Domesticando o meu corpo em ‘sublime’, ‘religião encarnada’ ou ‘dança vivida’? Ora por favor! Veja bem: do lado de cá o vivido é invivível. Tente escrever aí esse ar sufocado. Irrespirável. Aqui não há ‘boa caminhada’. Aqui há fuga. Desvio. Rota de colisão. Errar aqui é a única saída. Errar cada vez melhor.

Não está vendo o que fazes? Da vida, um quadro, uma cena a ser narrada, uma nova escola cheia de pretensas liberdades que no entanto se fazem como regras a serem seguidas, mestre sabedor das faltas alheias, do que é verdadeiro, do único jeito de ser ou não feliz. Ora, por favor, vamos deixar de ser. Vamos deixar o ser.

E já é preciso acabar com essa superstição dos textos e da poesia escrita. Que os poetas mortos cedam lugar aos outros.

Essa carta é a carta de uma assassina. O testemunho de um crime. O dia em que te matei Mário.

A.K.
[poeta em forma larvar].

Carta de Mário a Drummond

 

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